Curador Rodrigo Pedrosa, sobre Carlos Artencio
“A visão humana, em função da sua hipersolicitação, gera uma autodefesa impeditiva à percepção dos elementos visuais. Cria-se então uma espécie de resistência dos olhos que limita a admiração e contemplação que ocorria em outros tempos.”
Dietmar Kamper
Filósofo
A hiper velocidade da vida cotidiana, que nos atinge brutalmente com a digitalização das relações, nos faz desatentar para o mundo em que vivemos. Como bem definiu Ailton Krenak “Um contingente muito numeroso disso que chamamos de população do planeta, vive rotinas alienadas ou alienantes, em que de manhã sequer olham onde estão. Não olham se o céu está nublado, se vai chover. Muitas, inclusive, nem olham o céu”.
É neste mundo líquido, descrito por Zygmunt Bauman, onde a memória já não mais encontra morada, que o artista Carlos Artencio nos diz, como um delicado sussurro, que é tempo de desacelerar e redescobrir a beleza do mundo analógico e contemplativo.
Quando olhamos para as pinturas do Carlos podemos perceber que ele conseguiu, de alguma maneira, se manter imune a esta apatia diante do mundo que nos cerca. Quando ainda criança em Marília, interior de São Paulo, o menino abria mão das brincadeiras e travessuras com seus amigos, para penetrar no seu mundo particular de contemplação e curiosidade, ali já era possível vislumbrar sua alma de artista. E não demorou muito para que este infante mergulhasse na materialização de seu encantamento com tudo que o cercava através do desenho e da pintura. Com uma atenção ímpar às sutilezas do mundo à sua volta, como quem vê tudo através de uma lupa, Artencio nos faz parar no tempo e, como um zagal, nos conduz através dos caminhos e da poesia de seu olhar.
Nesta sua primeira individual Carlos nos apresenta pinturas em acrílica sobre tela que transmutaram sua vasta experiência como paisagista profissional, em um passeio afetivo e atencioso através das cores e texturas desta natureza exuberante que foi, durante décadas, a matéria-prima da sua atuação laboral.
O artista imprime em suas pinturas uma visão de mundo sem preconceitos e uma curiosidade de menino, que permite influências tão ecléticas que vão desde mestres impressionistas como Monet, passando por Francis Bacon e encontrando a pop Art britânica de David Hockney.
Somos convidados a olhar o mundo através de sua grande angular, que não deixa escapar nem um detalhe deste mundo maravilhoso que nos cerca e que nem sempre conseguimos perceber e contemplar.
Vamos juntos caminhar suavemente com Carlos Artencio, e nos permitir este momento de pausa e diálogo com a beleza profunda que o artista nos traz através de obras com a sensibilidade e a poesia que tanto precisamos para nos reconectar como humanidade!
Rodrigo Pedrosa, Curador
